Estará a criatividade reservada, apenas, a algumas pessoas? | Parte 2

19-11-2020
O foleiro. E o fuleiro.

Estava, com um grupo de amigas, a visitar um museu. Combinámos, naquele dia. Classificado como Monumento Nacional e Património da Humanidade. Bem, como estava a dizer, estávamos a visitar esse museu quando, a certa altura, nos explicavam todo o processo da escrita e do papel na Idade Média. Desde o fabrico do pergaminho (obtido a partir do tratamento da pele de animal), às tintas e sua coloração e à pena que servia de suporte à escrita. Todo o processo de fabrico até à obtenção do pergaminho e da tinta obedecia a uma cadência temporal absolutamente inimaginável com a velocidade dos tempos de hoje. Parêntesis: não vos falo como se os tempos idos fossem melhores, porque o não eram, mas com a curiosidade do que se era capaz de criar quando escasseava tanta coisa. Bem, continuando. Daqui passámos para a visita ao órgão de tubos. Explicavam-nos que era uma criação alemã, do século…ups, não me lembro, mas acho que do século XV…. Não sei se vos acontece, mas perco-me sempre quando, na ânsia de tanto partilharem descrições, deixam de me contar histórias… Explicavam-nos, dizia eu, como havia sido criado aquele órgão de tubos (lindo, diga-se) e como funcionava, nas cerimónias religiosas, quando, a dada altura, me falam do “foleiro”. Fiquei, novamente, atenta. Ora bem: o foleiro seria o senhor que, sempre que necessário, acionava o fole, enchendo-o de ar, para o órgão tocar. E, só assim, o órgão ganhava musicalidade nas mãos de quem o tocava. Imaginem um senhor (por vezes, sacristãos ou escravos – !!! - contratados para esse efeito), na parte lateral de um órgão, em posições difíceis de se permanecer (provavelmente num local interno do órgão) durante muito tempo e com o ruído sonoro a que estava sujeito. A força que teria de fazer para bombear o fole que, por sua vez, permitiria que o som saísse!!!  

 
Devem estar a perguntar-se por que razão estou a falar de tudo isto. 

Caso, claro, ainda cá estejam! 

 
Para os que cá continuam, fui para casa com a história do pergaminho. Das tintas. Do órgão de tubos. Do foleiro. Do tempo que tinham para poderem criar e recriar acontecimentos que mudaram completamente as nossas vidas. Seja na escrita/leitura seja na criatividade musical que nos acompanha hoje. Tudo era feito com o respeito pela cadência de uma nova ideia. Partia-se da necessidade/problema e criava-se um novo problema/necessidade. Tudo obedecia a uma métrica compassada pelo dia e a noite. Pelo ponteiro dos segundos. Pelo entusiasmo de se criar o que não se conhecia. E, ainda assim, arriscar. E explorar. Estamos, hoje, bem mais perto de podermos comunicar por hologramas. Estamos, hoje, bem mais perto de podermos viajar, turisticamente, até outros planetas. Conheci, um dia, um menino, seis ou sete anos, que me dizia que iria estudar para criar uma máquina do tempo porque iria ganhar muito mais tempo com o pouco tempo que iria perder a deslocar-se. Eu acreditei nele. Porque ele não se conforma, apenas, com o mundo que lhe dizem que existe. Gostaria que o foleiro tivesse sabido, mesmo que talvez não lho tenham dito, que o modo como bombeava o fole foi essencial para a evolução musical. Porque se pode ser criativo até quando somos foleiros. Não quando somos “fuleiros” (como dizem os espanhóis, fullero, que significa trapaceiro). Porque, neste caso, somos fuleiros, apenas, quando boicotamos a nossa criatividade. E a liberdade de arriscar mundos que desconhecíamos. Até os vermos!


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