À distância de um abraço

17-03-2020

O distanciamento social. Por estes dias, um imperativo ético e moral que temos de respeitar. Para o bem comum, claro. Desde então, e para nos protegermos a todos, tenho estado afastada, fisicamente, das pessoas. Algumas das quais me são essenciais. Tenho uma. Essencial. Que me assegura e aconchega. Mas os meus outros, também, essenciais fazem-me mesmo falta. "Mas, tem de ser", não é o que se costuma dizer quando temos de fazer algo que custa um pouco? O distanciamento. O mesmo será dizer, tenho dado menos abraços aos meus outros essenciais. E brincado menos com "ela". A pequenina. Desde abraçar para dizer um "olá" ao abraçar para me despedir com um "até já". Só o fazemos (e ainda bem que a tecnologia é nossa amiga) mediante um telemóvel. Que vai encurtando a saudade. E tenho divagado os meus pensamentos por este tópico que me tem ocupado, por vezes, o pensamento...o abraço... À medida que o distanciamento social progride. Como me têm, igualmente, ocupado o carinho pelos gestos de humanidade que somos capazes de ter e que nos distinguem nos momentos mais delicados. Como este que estamos a passar.

O abraço.

Diz-nos a ciência que o abraço potencia, entre outros circuitos neuronais conhecidos que se estruturam, os níveis de oxitocina, conhecida, vulgarmente, como a "hormona do amor" ou do "abraço". Ainda que não se reduza a isso! A oxitocina, produzida na glândula pituitária, é sintetizada no hipotálamo e é lançada para a circulação através da neuro-hipófise e secretada pelo sistema nervoso central. Funcionando como um neurotransmissor (pode funcionar como hormona ou neurotransmissor) está associada: à promoção das contrações musculares uterinas e ao aleitamento materno; ao vínculo pais-filhos; aos sentimentos de segurança e empatia; aos processos de decisão e pensamento, por exemplo. Claro que estes neurotransmissores farão parte de um todo que não se reduz às suas partes, mas à sua atuação conjunta. Como se de uma orquestra se tratasse. A oxitocina tem um papel essencial no sistema límbico, incluindo a amígdala, e na redução da ansiedade e resposta neuroendócrina ao stresse. A libertação de oxitocina é, por exemplo, estimulada por um conjunto de inúmeras hormonas (noradrenalina, dopamina, serotonina, entre outros), bem como pelo toque, pelo calor, pela estimulação do olfacto, assim como por determinados tipos de sons e luzes. E, ainda, a secreção de ocitocina pode ser desencadeada por mecanismos psicológicos específicos, nomeadamente, pelos traços das relações, das comunicações interpessoais (toque e suporte) e por ambientes afetuosos e friendly.

Na verdade, a oxitocina é produzida, também, quando nos sentimos pertencer a alguém.

Aproxima-nos e torna-nos, ainda, mais apurados para os outros. Esses outros, eles próprios, capazes de reconfigurar, ou aprimorar, as nossas (e as suas) estruturas cerebrais e neuroquímicas. Ou a permitir contar uma história...através da memória que guarda, e se constitui, nas emoções que nos acrescentam.

Não sei como será com vocês, mas (seguramente por ser dextra), quando abraço, abraço com o meu braço direito, secundado pelo meu braço esquerdo (porque as funções do nosso córtex motor assim o permitem), como que "deitando", na pessoa que me dá "colo" (e a quem dou o meu), a minha cabeça para o lado esquerdo. Abraço e sinto a pele de quem me aconchega. E de quem aconchego. O toque.

Todos nós temos, na pele (nas mãos, nos lábios, por exemplo), receptores chamados, em nome do anatomista que os descobriu, de corpúsculos Meissner. Eles, no essencial, permitem-nos perceber a temperatura, a textura, as carícias, o toque, etc. Assim que esses receptores se confrontam com esse sinal que a nossa pele codifica, enviam essa mesma mensagem ao córtex cerebral que vai descodificar e interpretar essa mensagem. Os corpúsculos de Meissner encontram-se distribuídos pela pele, concentrando-se em áreas particularmente sensíveis ao toque, como sejam as pontas dos dedos, palmas das mãos, nos lábios, na língua, na face, por exemplo, e localizam-se imediatamente sob a epiderme. Poderão perguntar-se, neste momento, por que razão estarei a ser tão pormenorizada no que escrevo. Até porque não costumo ser assim tão detalhista.

Porque tenho saudades de abraçar os meus. Porque um gesto tão simples tem configurações cerebrais e neuroquímicas tão extraordinariamente complexas. [Que não as especifiquei porque, caso contrário, escreveria mais do que seria suposto. Sendo que, por natureza, escrevo textos mais compridos do que, supostamente - dizem-me - seria natural neste universo digital em que, de tão inundado de estímulos, parece sobrecarregar a nossa atenção. O nosso foco. E distrair-nos. Mas eu recuso-me a considerar que nós, os nativos digitais e tecnológicos, não consigamos ler mais do que cinco minutos. Ainda que saiba que, por vezes, poderá ser assim que acontece. Mas por que razão não poderemos ter, em diferentes circunstâncias, a velocidade da informação e a lentidão, no bom sentido, de a pensarmos e reflectirmos, [seja pelas estruturas subcorticais seja pelas estruturas pré-frontais e corticais]?. E, por fim, porque gosto, mesmo, de pensar de onde vimos. E do que somos feitos.



E porque temos um corpo extraordinário que nos convida a pensar (às vezes não o escutamos, eu incluída!) - quando nos permitirmos o tempo para o pensamento lento, como nos recorda Lamberto Maffei, ou para a mente divagante que nos fala Daniel Goleman - no que é tão básico, no dia a dia, mas que é tão fundamental, na nossa vida. O teu abraço. 

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