A incerteza do incerto!

20-03-2020

O incerto! Parece-me difícil viver, permanentemente, no incerto. Na incerteza. Bem, vamos por partes. Há incertezas e incertezas (Será?). Vamos tentar categorizá-las. Se conseguirmos.


1. Há a "incerteza expectante". Organizamos uma festa e temos a esperança que a mesma seja tão especial quanto o nosso desejo. Há uma incerteza de que algo possa não correr tão bem. Mas o desejo que seja verdadeiramente especial. E, entre uma e outra, agarramo-nos, em pensamento, sempre à segunda opção. Quando ficamos pela primeira, o mais provável é...correr mal.

2. Há a incerteza do "será que vai correr bem?". Seja quando fazemos um teste na escola, quando vamos a uma entrevista de emprego ou quando escrevemos o nosso primeiro texto e o partilhamos com alguém! É uma incerteza onde moram todos os nossos desejos de querermos ter orgulho no nosso desempenho e, ao mesmo tempo, os receios de errarmos e falharmos. Como se ainda fosse possível acreditar que o sucesso se faz sem falhas e erros! E não faz, de todo. Pelo contrário.

3. Há as incertezas "do felizes para sempre?". Quando nos perguntamos se o nosso amor por ele(a) será para sempre. Será legítimo perguntarmo-nos isso? Será que quando o questionamos, já estamos a ter algum tipo de incertezas? E será isso mal? Não sei. Há um misto de "quero muito", "mas tenho medo de". Como se, naquele instante, quiséssemos eternizar aquele amor. Mas tivéssemos medo de um fim. Não será o "felizes para sempre" termos, enquanto tivermos, a pessoa que amamos ao nosso lado. Naquela "relação-casa" que nos permite ter incertezas aconchegadas por um "fica comigo para sempre"?

4. Há as incertezas que "apertam o coração". Aqui, começa a magoar-nos mais um pouco. Quando recebemos a notícia que alguém que amamos, ou nós mesmos, tem uma doença. Quando não sabemos se a vida terá um dia, dois meses, três anos, ou a eternidade. E, aqui, começamos a dizer, como que para aliviar, temporariamente, a nossa dor, "é viver um dia de cada vez". Mas, no fundo, o que nós queríamos dizer, era que queríamos que "fosse para sempre"!

5. Há, ainda, as incertezas "da humanidade". E, estas, não há como, atingem-nos a todos (acho que as anteriores também, não será assim? Somos feitos, todos, do mesmo tecido?). Sinto, não sei se concordam comigo, que a maior incerteza, para todos nós, é a incerteza do que virá amanhã. Morrem pessoas, hoje. O número de infectados aumenta de uma forma galopante. Os governos tentam apaziguar as suas nações (por mais erros que, entretanto, possam ter sido cometidos nestes tempos incertos e que, julgávamos nós, teríamos algum controlo). As pequenas e médias empresas (e também as empresas numa escala mais macroscópica) deparam-se com a incerteza do "será que vamos subsistir"?. O governo diz que ajuda. "Mas será que vamos subsistir?". Como será o mundo, amanhã? O teletrabalho está a adiantar-se. Iria adiantar-se, de qualquer forma. O vírus deu-lhe um "impulso"!!! O desemprego poderá aumentar? Será? Quais as consequências, para a saúde colectiva, que irão perdurar nas pessoas que tiverem contraído a doença? Poder-me-ão dizer que não haverá consequências nenhumas. Será? E as pessoas? Que tipo de sociedade virá a seguir? Quando poderá terminar toda esta "desgraça colectiva"? Estima-se. Imagina-se. Fazem-se cálculos matemáticos para antecipar o futuro. Fala-se em curvas sigmóides e pontos de inflexão. Em lockout como a única solução. As cidades estão silenciosas. Quando voltarão a ter barulho? O digital é o presente. E o futuro. De que forma? E a economia?...como se irá reinventar para poder dar resposta aos desafios que vai encontrar. Adiam-se casamentos e festivais. A cultura está "suspensa". Mas a reinventar-se nos insta stories. Multiplicam-se os live streaming. Os ecrãs aproximam-nos dos outros. Os artistas chegam-nos a casa através das plataformas digitais. A cultura distrai-nos das incertezas. Esperam-se meses complexos. À democracia espera-se que cuide dos seus. Dos que a defendem. Terá de ser criativa, claro. O que iremos encontrar amanhã? Não sabemos. Estimamos. Prevemos. Mas não sabemos.

Há incertezas e incertezas. Será? Se calhar, não. Ou melhor...umas poderão ser mais dolorosas do que outras, mas a incerteza encerra sempre duas possibilidades: o medo, por um lado (será que?, "o que pode acontecer se?", "e se..." etc.), e o desejo que o amanhã possa ser melhor do que o hoje. Há um livro que, para mim, foi muito importante e que vou partilhar com vocês: O Homem em busca de um sentido", de Viktor E. Frankl, escrito em 1946. Conta-nos este médico psiquiatra a sua própria história em que teve de lutar pela sua sobrevivência nos campos de concentração (em Auschwitz). É um livro comovente. Um elogio ao pensamento e ao modo como nos pode salvar das incertezas. Do vazio. Nos momentos de profundo sofrimento, Viktor E. Frankl colocava-se no "colo" da sua mulher, também ela presa (estava grávida!), num outro campo de concentração e pensava nela. Conversava, em pensamento, com o seu amor. Era a sua estratégia para não morrer diante de um sofrimento avassalador. As memórias do que o uniu a ela e o desejo, incerto, de poder voltar a vê-la mantiveram-no vivo durante todos esses anos de sofrimento. Libertado dos campos e terminada a guerra, soube...a mulher estava morta, tal como o irmão e os pais. O que o salvou dos campos e da morte foi o desejo de poder ir para junto da sua mulher. Não sabia se a iria encontrar viva. Mas sonhava e falava com ela, em pensamento, e acreditava que poderia acontecer. Esse encontro. Não aconteceu. Será que não? Foi a memória do que com ela viveu e o desejo de a reencontrar que o salvou. Portanto, algures nesse entretanto, entre o sonho e a realidade, esse encontro aconteceu. O sonho de que o amanhã seria melhor do que o agora. Foi o seu pensamento que o salvou. Não somos tão sofisticados?



Não sabemos como vai ser o amanhã quando tudo isto passar. Mas eu quero acreditar que será melhor. Diferente, mas melhor. As incertezas, sejam elas quais forem, colocam-nos perante o futuro. Como irá ser? Não tendo resposta, quero acreditar que, por mais desafiante e turbulento que possa ser o nosso presente, o nosso pensamento vai-nos permitir sobreviver. Num futuro que, quero crer, será melhor. Conseguiríamos sobreviver, por tempo indeterminado, na incerteza? Não, de todo. Mas -se entre o desalento, o cansaço, a irritação e desesperança e, novamente, o alento, o desalento, o cansaço, o "vai correr tudo bem, o "será que vai", etc., que iremos atravessar - abraçarmos a ideia de um amanhã melhor, iremos todos conseguir sobreviver às incertezas. Porque, no fundo, por mais dolorosas que sejam, as incertezas obrigam-nos, quando andamos distraídos, a perspectivar um sentido para o que fazemos. A busca de um sentido é, na minha opinião, aquilo que nos permite sobreviver ao incerto. E nos aninha num futuro melhor. Diferente, mas seguramente melhor.  

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