O senhor sem nome

31-12-2019

Tocaram-me no ombro...

Não me virei...Olhei-o sem o olhar. O carapuço que lhe cobria parte da cara não me deixava olhá-lo. Se calhar...era eu quem não o queria olhar. Por vezes, dou por mim, agora que revivo esta noite, a pensar se o carapuço seria mesmo real. Terá sido colocado, por mim, para que o mantivesse longe do meu olhar? Será, aquele carapuço, o único aconchego desaconchegado que lhe vai permitindo, a ele, manter-se à margem deste mundo que corre a uma velocidade que já não é a dele? Será, aquele carapuço, o único afago que ainda o mantém, naquele ritmo arrítmico entre o dia e a noite, a noite e o dia, o dia e a noite (fará diferença para ele?!)? Mas que continua a separá-lo...de nós? Ou nós...dele???? Queria, eu, naquele momento em que a noite parecia afagar o ruído do dia já longo e cansado, que o tempo dele não atropelasse o meu. Haverá momentos assim. Não devia. Mas há. Em que a pressa de nos aninharmos ao que já conhecemos nos faz ceder à indiferença. Ao outro. Pedia um snack, no bar da estação, enquanto aguardava pela hora em que a estrada me levaria para onde pertenço. Será? Bem, como dizia, pedia eu um snack quando me tocaram no ombro. Não me virei. Olhei-o pela esquina do tempo. Por cima do ombro. Abanei a cabeça. Não sei o porquê. Nem sequer lhe dei tempo para me falar. Terei negado, naquele segundo, a sua existência? Ou validado, também eu, a sua não existência? Vi-o a ir-se embora. Carapuço, o tal, enfiado na cabeça. O casaco longo parecia esconder os seus passos pesados e confusos. Cabeça para o chão. O corpo aos tropeções Não sei como não caiu! Vergonha. Senti de mim. A passada dele. O senhor do bar dizia, enquanto mastigava a minha própria indiferença, que era uma pena. Um senhor tão bem-sucedido que ele era...um fotógrafo reconhecido e estar assim...naquelas condições. Pobre diabo, dizia. Um desgosto de amor e deixou-o assim, na miséria. Continuava a falar diante de todos os que, como eu, aguardavam pela estrada que os levaria para algum lugar enquanto atenuavam o cansaço com um café. Tive vontade de chorar. De ir ter com ele. Pedir-lhe desculpa. Dizer-lhe que o queria ouvir. De lhe perguntar pela sua história. De, nem que por instantes fosse...olhá-lo enquanto me diria o quanto morria um bocadinho...todos os dias. Não só por ter perdido o amor da sua vida...mas, talvez (não sei, não o olhei!) por não ter com quem poder falar dele. Do seu desgosto de amor. Por não ter ninguém...junto de quem se pudesse aninhar. Por instantes.

Senhor sem nome, enquanto o penso, imagino-o a tocar-me, novamente, no ombro. Enquanto o escrevo, dou por mim a pensar como seria olhá-lo. Com o carapuço, mas já sem ele (terei sonhado?!). Senhor sem nome, pode ficar mais um bocadinho, se quiser. A estrada que me leva pode esperar. Não. Ele já foi embora. O corpo aos tropeções. A tocar no corpo dos outros. À espera de quem não tem. Ele...a deambular pelo chão. À procura, no chão, do que perdeu. Sem encontrar. A tocar no ombro dos outros. A vida e a morte. Ao mesmo tempo. A minha estrada. E a solidão dele. Haverá mais desamor do que não saber para quem se pode regressar? O dia e a noite, a noite e o dia o dia e a noite...

Ana Carolina Pereira 


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