Para que servem os quadros de honra? De excelência? De valor?

13-07-2021

Já não estávamos juntos há muito tempo. Mas parecia não ter passado assim tanto tempo. São, assim, os amigos! A conversa alongou-se para além das horas. São, assim, os amigos! Não perdemos tempo a cobrar o tempo. Mas a estarmos. Uns com os outros. Não sei como lá fomos parar. Mas fomos. 


Os quadros de mérito. Quadros de honra. de excelência. Sejam quais forem as designações que se entendam considerar. 

Há já algum tempo que queria escrever sobre isto. Mas acabava sempre por adiar. 
Pois bem, (não se vão embora, fiquem aí, por mais que se vá seguir uma parte do Despacho...). 

Por Despacho  Normativo nº102/90 publicado em Diário da República n.º 211/1990, Série I de 1990-09-12, escreve-se, entre outras alíneas, o seguinte: "A Lei de Bases do Sistema Educativo pretende garantir o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade do indivíduo e criar condições de promoção do sucesso escolar e educativo, valorizando a dimensão humana do trabalho escolar. (...)". Concordo, se me permitem!

"(...) Assim, considerando que, no âmbito da reforma educativa, compete à escola, enquanto espaço de vivência democrática e agente dinamizador de inovação social e cultural, prosseguir eficazmente aqueles objectivos, reconhecendo sistematicamente os alunos que se distinguem pelo seu valor, demonstrado na superação de dificuldades ou no serviço aos outros e pela excelência do seu trabalho Considerando, também, que alguns alunos se distinguem na escola e merecem ser reconhecidos a nível regional e até nacional; (...)".

Mais se diz..."(...) Considerando, ainda, que as actividades do sistema pedagógico-didáctico muito se enriquecem se for criado e introduzido um mecanismo adequado de promoção escolar que não só estimule o aluno para a realização do trabalho escolar, individual ou colectivo, como também lhe reconheça, valorize e premeie as aptidões e atitudes reveladas ao nível cultural, pessoal e social". 

Pelo que se determinou, por exemplo, no ponto 1: "São criados os quadros de valor e de excelência a nível da escola, a nível regional e a nível nacional para os alunos das escolas do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e para os alunos das escolas do ensino secundário, públicas, particulares ou cooperativas. [...]", salvaguardando-se a autonomia das escolas para a sua aplicação. 

Ora,

Não colocando em questão a justeza e boa intenção da lei promulgada (tenho, para mim, a confiança em quem pensa a educação e o sistema de ensino com seriedade e profissionalismo, por mais que!), não posso, ainda assim, deixar de colocar algumas reservas das suas implicações, na prática. 

Por exemplo,

Já estive com crianças/adolescentes que foram contempladas, pelo seu mérito, no Quadro de Honra da sua escola. E que viviam com o receio de, no ano seguinte, porventura, não conseguirem manter...o ranking! A sua média! 

Já estive com crianças/adolescentes que estavam perto de entrarem, finalmente, para o Quadro de Honra. Mas que viviam no receio de não o conseguirem, por mais que se tivessem esforçado. E muito! 

Quando vivemos em função da validação, mais do que da curiosidade em aprender, acabamos por "escorregar", mais vezes do que imaginamos. Porque, no essencial, sermos inteligentes significa que pensamos com o corpo todo. E, por vezes, o nosso corpo está em "sobressalto". Demasiado preocupado em corresponder. Em procurar validação. E, quando isso acontece, a nossa disponibilidade para aprender, por mais esforço que façamos, fica reduzida. Porque pensar implica não esquecer que seremos tão mais inteligentes quanto mais sentirmos. Ainda acreditam que possamos continuar a "separar" racionalidade de sentimentos? Acham mesmo? (não sou eu que o digo, mas os Mestres).   

Já estive com crianças/adolescentes para quem o quadro de honra nem era uma questão! Estavam mais preocupadas em aprender. Em brincar. Dentro e fora das aulas. Mesmo que fossem incluídas, pelo seu mérito, nos tais Quadros de Honra. Mas, para elas, nem era assim tão importante. Que bom!

Já estive com crianças/adolescentes que se consideravam "menores" porque havia o "eles" (os "excelentes") e o "nós" (os "medianos"). 

Já estive com crianças/adolescentes que tinham resultados escolares médios/médios inferiores, mas que, em compensação, eram considerados os "bonzinhos" pelas ações que haviam desenvolvido, em termos sociais. E diziam: "Não sou muito inteligente, mas ajudo!!!". Será que é isto que pretendemos? 

Já estive com adolescentes que me disseram: "é engraçado. Passei o tempo a querer estar no Quadro de Honra e, depois que consegui, não senti tanta felicidade como imaginava. Só pensava. Será que vou conseguir, para o ano?". 

Já estive com...

E então? Perguntarão vocês. 

Se calhar já ouço alguns de vós a dizerem: "mas as crianças devem ver reconhecido o seu mérito" (verdade, mas desta forma, pergunto eu?); "o mundo é assim...a lei do mais forte"; "as pessoas devem ser recompensadas pelo seu trabalho...assim aprendem que o mundo não é fácil, lá fora"; "estão sempre a proteger-se as crianças. elas precisam de aprender o que custa a vida desde pequenas e a lutar pelo que pretendem", etc., etc. 

Que fique bem claro: acho essencial que consigamos competir para seremos melhores. Hoje e amanhã. Que nos esforcemos. Que trabalhemos. Que consigamos falhar e falhar e esforçarmo-nos e esforçarmo-nos e conseguirmos (o «e» tantas vezes é propositado!).
 
Mas, na verdade, o que lhes estaremos a ensinar? Que há crianças/jovens de primeira e de segunda? Que há o palco para quem consegue e os bastidores para quem lá não chega? Que seremos tão mais inteligentes quanto melhores notas tivermos? (mais uma vez: tirar bons resultados dá-nos uma sensação de prazer e realização pessoal. Não é contra isso que estamos a falar. Mas contra uma perspetiva, talvez, demasiado mecanicista deles. Da aprendizagem e desenvolvimento dos mais novos).  

Eu sei que me vou alongar, mas vou continuar a escrever (quem quiser, continue comigo!)

A escola/aprendizagem deve ser inclusiva. Não segregacionista. Deve potenciar o melhor de cada um. A  escola deve premiar o processo. A curiosidade. As perguntas (tantas crianças que me dizem que têm vergonha de colocar perguntas porque acham que "ter dúvidas" as menoriza diante dos outros!). Deve premiar as ideias. Os projetos. As competências sociais. O brincar. O explorar. A cooperação. Deve premiar o ritmo de cada um. E, respeitando que haverá diferentes "velocidades de crescimento", não deve deixar "ninguém para trás". E, eu sei, as escolas farão o seu melhor, não tenho dúvida (tenho um respeito profundo pelas escolas e professores. cresci numa escola. junto de professores. literalmente. quer dizer. bem, não é importante. Mas,

E para acabar...(para quem, ainda, tiver aguentado!!!)

Deixem-me que partilhe uma entrevista do Professor Doutor Sobrinho Simões, por quem tenho profunda admiração (será que algum dia saberá desta minha admiração?), na qual disse, quando questionado, que o melhor legado que deixava eram as suas gentes, claro, e a "escola" que havia feito com os seus alunos. A partilha de saber. A curiosidade por aprender. E ensinar. 

Disse, ainda, em entrevista à rtp, que era essencial, para sermos "gente", que tivéssemos capacidade de compromisso (uns para com os outros) e nunca nos esquecêssemos que precisamos dos outros para sermos melhores. Foi profundamente comovente, para mim, o modo simples e tão profundo das suas palavras. Disse muito mais. Mas, 
Voltando à escola. Estaremos nós a ajudar os mais novos a serem mais competitivos? Ou a colocá-los diante da iminência do "terror" da falha?  Seja para os que estão no "pódio!!!". Seja para os que olham para eles, de baixo para cima. 

P.S. temos de trabalhar para conseguirmos alcançar o que sonhamos. Verdade. Não é isso que tentamos fazer, cada um de nós, todos os dias, no nosso local de trabalho? Junto dos nossos?

Mas, digam-me se concordam: não devemos promover o que de melhor a civilização tem? Ou seja, a capacidade de podermos ser "gente" uns para com os outros!

Fim. Desculpem-me!!!
Mas a simplicidade e a síntese são tão difíceis de conquistar. Mas,
Se continuar a trabalhar. A esforçar-me. A competir. E, sobretudo, a não me esquecer de ser "gente"!  
Talvez lá chegue! 

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