A profissão do meu pai!

23-10-2020

Conheci um menino. Olhar bonito. 7 anos. Converso com ele. A dado momento, pergunta-me:

- Tu queres mesmo saber?

-Queria, se concordares, respondi-lhe.

- Acho que não vais gostar de saber.

- A sério? Porquê?

- Ele tem as mãos com marcas. Ele trabalha muito e vem com as mãos magoadas…

(…).

 

Vou correr o risco de me sentirem moralista com o que vou escrever. Posso correr esse, e mais, riscos, claro! Mas não faz mal. Não nos julgamos todos, direta ou indiretamente, uns aos outros? Com as nossas supostas verdades sobre tudo e sobre nada? “Esta é a minha verdade”, dizemos tantas vezes. Como se houvesse verdades. E não, apenas, perspetivas. O nós e os outros. Os outros e o nós. Os outros e…. Bem, já estou a divagar para além do que me trouxe aqui...

 

Voltando ao menino de olhar bonito…o desconforto com que falava da profissão do pai.. num misto de orgulho e embaraço por o seu pai, contrariamente a outros pais, aparecer em casa com as “mãos magoadas” de trabalhar num ofício…duro. Estamos a falar de um menino de 7 anos, com uma enorme sensibilidade, mas já um pouco “refém” de conceitos sociais estratificados com que vai crescendo ao observar…os outros. Quantos “outros” precisou ele para formar a ideia de que há profissões de primeira e segunda classe? Quantos “outros” precisou ele para imaginar que há profissões mais dignas do que outras? Quantos “outros” precisou ele (não se esqueçam...estamos a falar de um corpo de 7 anos) para crescer com a ideia de que as mãos magoadas do seu pai serão um sinal de que o seu pai exerce um ofício que não tem tanto valor e criatividade como o desempenhado pelos pais dos “outros” com quem ele convive? E nós? E nós? De quantos “outros” precisámos para considerarmos, por vezes, que há pessoas de primeira e segunda classe? De quantos “outros” precisámos para equacionarmos que uma pessoa que desempenha determinadas atividades (socialmente mais reconhecidas, claro – e o social é uma entidade construída por nós, não se esqueçam!) é mais elevada e merece uma maior distinção do que outra? Juro que este assunto me incomoda. Juro que me incomoda que este assunto seja, sequer, um assunto. Juro que me incomoda que não nos tenhamos reconhecimento nas diversas profissões que desempenhamos. Incomoda-me que o facto de uns terem prosseguido com os seus estudos mereça uma maior reverência por parte dos outros. Vocês conhecem todas as histórias de quem vos rodeia? Vocês sabem o percurso de vida daquela pessoa que, porventura, considerem menor pelo ofício que desempenha? Vocês já pensaram que a pessoa que vos está a atender pode precisar daquele emprego, que consideram “menor”, para poder “pagar as contas” ao final do mês? Mesmo que tenha estudado tanto e tanto para poder seguir o seu sonho…e, ainda, não tenha encontrado essa oportunidade? E não. Qualquer ofício não ganha mais relevância se essa mesma pessoa passar a ganhar mais dinheiro. O respeito pelo outro não é sinónimo do que ele ganha. Não pode ser. Nem sinónimo do carro que “veste”. Não deveria ser. Idealmente, todos nós ganharíamos bem. Idealmente, todos nós estaríamos bem. Não que esse ganhar tenha, necessariamente, de ser uniforme para e por todos nós. Mas, idealmente, ganharíamos melhor do que acontece, hoje, nalgumas profissões. Ainda assim, o respeito que o outro nos merece não se compadece com o seu extrato bancário. Não deveria acontecer dessa forma. Não sei…vou correr o risco de ser moralista. Mas não faz mal. Porque, juro-vos, o respeito que tu, e tu, e tu, me merecem nunca se balizará pelo que vocês vestem. Pelo que vocês exercem no vosso trabalho. Nunca. Disse ao menino que, se o pai dele não trabalhasse, eu viveria ao frio. O olhar dele agigantou-se de orgulho. Aquele orgulho que deveríamos ter quando desempenhamos o nosso trabalho com o respeito e brio que nos merece. E com criatividade. Criatividade? Pois... há tanto para falar sobre isto! Talvez num próximo texto!    

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