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Estará a criatividade reservada, apenas, a algumas pessoas? | Parte 2

O foleiro. E o fuleiro.

Estava, com um grupo de amigas, a visitar um museu. Combinámos, naquele dia. Classificado como Monumento Nacional e Património da Humanidade. Bem, como estava a dizer, estávamos a visitar esse museu quando, a certa altura, nos explicavam todo o processo da escrita e do papel na Idade Média. Desde o fabrico do pergaminho (obtido a partir do tratamento da pele de animal), às tintas e sua coloração e à pena que servia de suporte à escrita. Todo o processo de fabrico até à obtenção do pergaminho e da tinta obedecia a uma cadência temporal absolutamente inimaginável com a velocidade dos tempos de hoje. Parêntesis: não vos falo como se os tempos idos fossem melhores, porque o não eram, mas com a curiosidade do que se era capaz de criar quando escasseava tanta coisa. Bem, continuando. Daqui passámos para a visita ao órgão de tubos. Explicavam-nos que era uma criação alemã, do século…ups, não me lembro, mas acho que do século XV…. Não sei se vos acontece, mas perco-me sempre quando, na ânsia de tanto partilharem descrições, deixam de me contar histórias… Explicavam-nos, dizia eu, como havia sido criado aquele órgão de tubos (lindo, diga-se) e como funcionava, nas cerimónias religiosas, quando, a dada altura, me falam do “foleiro”. Fiquei, novamente, atenta. Ora bem: o foleiro seria o senhor que, sempre que necessário, acionava o fole, enchendo-o de ar, para o órgão tocar. E, só assim, o órgão ganhava musicalidade nas mãos de quem o tocava. Imaginem um senhor (por vezes, sacristãos ou escravos – !!! - contratados para esse efeito), na parte lateral de um órgão, em posições difíceis de se permanecer (provavelmente num local interno do órgão) durante muito tempo e com o ruído sonoro a que estava sujeito. A força que teria de fazer para bombear o fole que, por sua vez, permitiria que o som saísse!!!  

Devem estar a perguntar-se por que razão estou a falar de tudo isto. 

Caso, claro, ainda cá estejam! 

Para os que cá continuam, fui para casa com a história do pergaminho. Das tintas. Do órgão de tubos. Do foleiro. Do tempo que tinham para poderem criar e recriar acontecimentos que mudaram completamente as nossas vidas. Seja na escrita/leitura seja na criatividade musical que nos acompanha hoje. Tudo era feito com o respeito pela cadência de uma nova ideia. Partia-se da necessidade/problema e criava-se um novo problema/necessidade. Tudo obedecia a uma métrica compassada pelo dia e a noite. Pelo ponteiro dos segundos. Pelo entusiasmo de se criar o que não se conhecia. E, ainda assim, arriscar. E explorar. Estamos, hoje, bem mais perto de podermos comunicar por hologramas. Estamos, hoje, bem mais perto de podermos viajar, turisticamente, até outros planetas. Conheci, um dia, um menino, seis ou sete anos, que me dizia que iria estudar para criar uma máquina do tempo porque iria ganhar muito mais tempo com o pouco tempo que iria perder a deslocar-se. Eu acreditei nele. Porque ele não se conforma, apenas, com o mundo que lhe dizem que existe. Gostaria que o foleiro tivesse sabido, mesmo que talvez não lho tenham dito, que o modo como bombeava o fole foi essencial para a evolução musical. Porque se pode ser criativo até quando somos foleiros. Não quando somos “fuleiros” (como dizem os espanhóis, fullero, que significa trapaceiro). Porque, neste caso, somos fuleiros, apenas, quando boicotamos a nossa criatividade. E a liberdade de arriscar mundos que desconhecíamos. Até os vermos!

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Olá bebé! Tchau bebé!

Estava, um dia destes, a conversar com uma das minhas pessoas. Que tem uma outra das minhas pessoas ao seu colo. Nas palavras que trocávamos, estava a mãe espantada com mais uma conquista da sua bebé. Dizia-me: - ainda não te disse? É uma delícia! Agora, quando chegamos no elevador, ela diz “olá bebé”. E, quando sai, diz “tchau bebé”!. Fiquei a pensar nisto. Na bebé a espantar-se com o reconhecimento, progressivo, de si…, também, no espelho. Como se, naquele instante, fossem duas pessoas que não se conhecem e que passam a cumprimentar-se e a conhecer-se, cada vez mais e mais. Até ao momento em que se tornam melhores amigos e a perceber que serão, no fundo, a dupla face da mesma moeda. Não era tanto dos mais pequenos que eu queria falar. Ainda que parta deles. Mas de nós, os mais crescidos. E, a bem dizer, não sei (ou sei?) muito bem o que, no fundo, queria dizer quando me demorei a pensar no bebé e no espelho, porque, tal como ao espelho, acontece, por vezes, observarmos algo que não sabemos. Ou, nalguns casos, algo que não reconhecemos. Qual de nós somos nós? Nós ou a nossa imagem refletida? Vamos complicar mais. Qual de nós somos nós? Nós, a nossa imagem refletida ou a imagem refletida que achamos que devemos ser porque os outros nos dizem para ser (mesmo que não o digam, diretamente)? Mais ainda. Qual de nós somos nós? Nós, a nossa imagem refletida, a imagem refletida que achamos que devemos ser porque os outros nos dizem para ser ou a imagem que idealizamos ter de ser porque, achamos, que os outros nos disseram que teríamos de ser? Por fim. Qual de nós somos nós? A imagem que se duplica, no espelho? Ou a imagem que nós vemos, na verdade, no espelho. Parece a mesma frase, mas não é. Voltem atrás e leiam melhor. Para a despedida: qual de nós se acarinha e espanta quando nos vemos (sublinho o vemos!) como acontece ao bebé quando descobre que ele, e a imagem dele, serão a mesma pessoa (por mais que, ao longo da sua vida, possa correr o risco de lhe dizerem que não o é)? Qual de nós, ao se ver, se espanta num “olá”?

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O vírus do perfecionismo…ou da escassez!

Tanta e tantas vezes. A palavra perfecionismo nas histórias que se contam. Ou nos corpos que desfilam nas redes sociais. Mas, isto, daria para uma outra “prosa”! Fica para a próxima. Ainda ontem, em conversa, me diziam que não sabiam como controlar a ansiedade. Controlar a ansiedade. Controlo, controlo, controlo. Ou, então, o que se esconde por detrás dessa palavra, medo do descontrolo, descontrolo, descontrolo. Ou, então, indo a fundo, “quem olha por, e para, mim”? Talvez não seja o mais acertado falarmos em ansiedade, neste caso que vos conto (uma resposta natural que nos protege tantas e tantas vezes). Mas de angústia. Mas angústia de quê? De um futuro que antecipamos, com medo e medo e medo? De um passado que revisitamos, por vezes, em tristeza e mágoa? Voltando à conversa de ontem…dizia-me essa pessoa “quando tudo está a correr bem comigo, tenho ansiedade, na mesma…parece que vivo em escassez”. Parei aqui! Não importa o resto da conversa, porque, essa, ficará para nós. Escassez. Bem, se o “perfecionismo” fosse uma pessoa que se olhasse ao espelho, decerto veria, do outro lado, uma cara assustada e com medo que lhe descobrissem as suas falhas (a falha que habita em si de uma forma persistente mas que tenta maquilhar com o “tal perfecionismo”). Porque, no fundo, é esse o medo do descontrolo, neste caso em específico que vos relato: “gostarão de mim se eu falhar?”. Há um tal medo deste “se” que passamos a ter, ainda, mais medo “dele”. Todos temos uma história. E, nalgumas histórias, parece morar algum desencanto e desamor. Não que não haja, originalmente, amor, mas um desamor de cada vez que se atropelam nesse amor desencontrado. Imaginem… de cada vez que comparamos alguém de quem gostamos com outro alguém a quem atribuímos, com um olhar diferente, mais feitos (nem que à boleia de uma comparação com uma nota de um teste), ou, ainda mais um exemplo, de cada vez que atribuímos à pessoa de quem gostamos o rótulo de “pessoa exemplo” (com o risco que daí decorre para a própria e para a outra pessoa a quem se diz que se lhe tem de seguir o exemplo e, por isso, poderá sentir que nunca lhe chegará, sequer, aos calcanhares; conclusão, sofrem ambos os lados da equação!) e se, porventura, esse padrão se repetir, silenciosamente, existirá, sobretudo, escassez. Qualquer coisa como: “serei alguma vez suficiente para a pessoa que amo e que, desejo, sinta o mesmo por mim?” ou “gostarão mais de mim quando dizem que eu sou um exemplo?” ou “gostarão mais de mim mesmo quando me comparam com o exemplo que me pedem para ser, por mais que não se apercebam que o fazem?”. E começa, aí, o carrossel de exigências. Da escassez, ao mesmo tempo, que podemos sentir nesses entretantos. Caso, claro, se acumulem e prolonguem no tempo. Que fique claro: termos orgulho e vaidade no que conquistamos é essencial. E saudável. Não desistirmos dos nossos objetivos, igualmente. Termos o orgulho de quem nos gosta, também. Mas, quando, a certa altura, andamos a correr em função de um perfecionismo (por sobrevivência perante a dor que ele esconde) sobrará o desamor que poderemos sentir, uma ou outra vez, uma ou outra vez, a vida toda. E, aí, só restará a imagem que vemos no espelho. E o desamor em que nos sentimos, permanentemente. Façamos nós o que fizermos. E, claro, se não encontrarmos ninguém que nos acolha e repare. Se existir, apenas, a escassez e a ilusão da expetativa, não falaremos, apenas, de ansiedade. Mas da angústia, e dor, dum futuro que nunca deixa de ser o passado constante de todos os dias!

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QR code TAP| Tenho Amigos Preciosos

Recebi. Uma mensagem. 

De uma pessoa amiga. Dizia assim: “saudades de ajuntamentos com vocês”. Não me recordo da hora em que a recebi. E não a quero confirmar no telemóvel. É uma “chatice” a cronometragem da vida, às vezes. Mas lembro-me do meu sorriso quando a li. E da vontade de escrever…sobre os amigos. E do quão precioso é tê-los. Não sei se já repararam, mas quando estamos com crianças, por vezes, perguntamos-lhes pelos seus amigos. Porque reconhecemos, implicitamente, a importância que têm. Não sei se já repararam, mas eles acabam por ter essa mesma importância, tenhamos nós a idade que tivermos. Ter amigos deveria ser, assim, uma espécie de requisito quase obrigatório. Da mesma forma que temos um número de beneficiário e de contribuinte, por exemplo, deveríamos ter uma espécie “carimbo”, um QR code que comprovasse o reconhecimento de termos amigos na nossa vida. Os amigos são a melhor app que podemos ter. 

Os amigos. Os mais pequeninos costumam fazer quase uma hierarquia de amigos: há os melhores amigos; os amigos de casa; os amigos da escola; os amigos do desporto; os 1ºs amigos; os 2ºs amigos; os bff (vulgo, best friends forever); os amigos divertidos; os amigos a quem contam todos os seus segredos…e por adiante. No fundo, o que eles nos quererão dizer, por outras palavras, é que os amigos são tão importantes que não podem ser prescindíveis. Que os amigos são tão importantes que nos “servem” diferentes funções. Que os amigos são tão importantes quanto mais diversificados forem. Acho – não sei se concordam comigo – que os amigos não têm de ser “iguais” ao que imaginamos que somos. Ou que queremos. Quase numa versão de “almas gémeas”. São com quem nos identificamos.

Os amigos, os amigos mesmo, são todos os meus amigos que penso enquanto vos escrevo. E que vocês pensam enquanto me leem. Os amigos não têm de estar connosco, todos os dias, para ganharem o nosso selo de amizade. Os amigos não são os que concordam sempre connosco. Os amigos não são quantidade. Mas qualidade. Os amigos não são quantidade. Mas proximidade. E intimidade. Os amigos são experiências de comunhão. Os amigos não têm de estar sempre junto de nós. Fisicamente. São os que nunca estão longe. Por mais que estejam, na verdade.

Os amigos são as pessoas atentas. Que parecem ter uma espécie de radar que os fazem ligar-nos ou enviar-nos mensagem quando mais precisamos deles. Os amigos são os que se lembram (já repararam que lembrarem-se de nós significa que somos pensados por eles? Que existimos? Há a derme. Que protege o nosso corpo. E a “pele” que a amizade acrescenta à nossa vida, pelo que nos acarinha e protege). Os amigos são os que cuidam de nós. Os amigos cuidam-se. Precisam-se. E que, sem nunca nos cobrarem, fazem “birra” quando estamos um pouco mais distraídos para com eles. Os amigos são os que nos olham. E nos escutam. Os amigos são aqueles junto de quem podemos estar a conversar…em silêncio. São com quem nos podemos zangar. E que se zangam connosco. Porque (nos) somos importantes. E com quem nos encontramos para fazer a paz. 

Os amigos são tão preciosos que me sinto um bocadinho “absurda” a tentar escrever sobre eles. Os amigos são tão, mas tão, preciosos. São a diferença entre podermos viver e… sobreviver. São a diferença entre uma vida com entusiasmo e uma vida com apatia. Li, algures (não me recordo mesmo onde, desculpem-me) que aquilo que conhecemos como realidade não existirá enquanto não for pensada por nós. Que o impacto de um rio, por exemplo, só ocorre na exata medida em que o pensamos e o vivemos, a dois, a três, a quatro…. Os amigos serão assim. Existem na medida exata do valor com que existem para nós. E, nós, para eles.

Desculpem se posso ser um pouco radical, mas nós só existimos se existirmos para alguém. Seremos os outros de todos os outros. E eles os nossos de todos os nossos. Os amigos são preciosos (eu sei que já disse isto, antes, mas a repetição é propositada). Os amigos são aqueles que, estando nós há tanto tempo sem estarmos com eles, nos recebem como se nos tivéssemos despedido com um até amanhã, no dia de ontem. 

Os amigos não cobram, mesmo. Os amigos, apenas, Estão. São. Existem. Porque existimos para eles. Os amigos poderão fazer a diferença entre salvar-nos e/ou afundarmo-nos numa tristeza sem fim por não nos reconhecermos nos outros. Os amigos são a nossa casa. Se pudesse, desafiava-vos, a partir de agora, a mostrarem (com orgulho!) o QR code TAP (acabei de inventar, agora!!!! Dêem-me um “desconto”. A intenção, todavia, é boa!!!). 

QR code TAP| Tenho Amigos Preciosos. 

Não, não tem qualquer comparação com a companhia área. Ou terá? Até porque os amigos, correndo o risco de estarem em “vias de extinção” e, por vezes, serem controversos, são capazes de nos fazer viajar por mundos que nunca veríamos…sem eles. Eu tenho amigos preciosos. E tenho saudades dos ajuntamentos com eles. 

E vocês? 

pais

É injusto!

Os legos. E as palavras. 

Uns e outros, podem desmontar-se. Acho que será esse o encanto de todos nós. A desconstrução. Quando o permitimos.

Os pais. E os filhos.  

A história dos pais. E a história dos filhos. E o modo como, ambas - as histórias - se podem entrelaçar. E baralhar. E, por vezes, confundir. E....subtrair. Uns aos outros!

"não me ouvem...tento falar como me sinto, mas estão sempre a dizer que eu tenho tudo e que sou injusto. Que tenho tudo e que não tenho razão para me queixar". Dizia-me alguém. Quer dizer, um jovem. Quer dizer, o João. Quer dizer, todos os que... 

Esquecemo-nos, por vezes, que os pais...são pessoas. E que,  no desejo dos seus filhos serem o seu melhor projeto, esquecem-se, por vezes, que os filhos também são...veja-se, pessoas. Com eles. Mas para além deles. 

Acho um bocadinho injusto quando os pais não escutam os "filhos pessoas" à boleia de um "damos-te tudo. É injusto. Não tens razão para te sentires assim. Nós fazemos tudo por ti e tu não valorizas". 

Porque, sem querer, é como se estivessem, na vontade de tanto lhes quererem bem, a dizer que, como pais, não estão a falhar em nada. (sabem quando estamos tão aflitos que nos defendemos a "atacar"?).

Vamos brincar aos legos? Às palavras? Acho que os pais, quando o dizem, quereriam ter dito: - "Mas onde é que eu estou a falhar para tu estares a sentir-se mal?" Se desconstruíssemos, ainda mais, quereriam ter dito: "filho, diz-me, achas que estou a  ser mau pai/mãe para ti?". Querem mais? "Tenho medo de não ser a mãe/pai tão importante para ti como sempre sonhei".  Querem mais? É melhor ficarmos por aqui!

Os pais serão, quando tudo corre bem, o Bem mais inestimável na vida de um filho. Mas, por vezes, ficam tão presos ao medo de poderem estar a falhar, enquanto pais, que acabam, sem querer, por centrar-se mais em si mesmos (e na sua história) e fazerem "birras" e "refilarem" quando se sentem questionados.

Mas não é isso que eles, os filhos, querem. Só querem que alguém tão importante para eles escute os seus desabafos. Não temos de concordar com os mais novos. Mas devemos escutá-los. Para, depois, darmos a nossa opinião. E ajudá-los a pensar. Com a nossa ajuda. Mas por si mesmos. 

O melhor, penso, da parentalidade, não será tornarmos os mais novos "fotocópia" do que achamos que eles devem ser. Mas ajudá-los a existir. Como pessoas. Pode parecer fácil, mas será o projeto mais ambicioso e belo do ser humano:  existir, de modo pleno, perto de alguém. Porque, quando se ama alguém, não se cobra. Partilha-se. Podemos acrescentar contraditório. Dar a nossa opinião. Mas, sempre, a tentarmos comunicar. Sem cobrarmos. Porque, quando o fazemos, só existe o medo da falha. E, o medo da falha, será, talvez, o lego mais comercializado e vendido no mercado!

Ana Carolina Pereira

divorcio

Pessoas como nós

Andrii e Valeriia Karpylenko. Casaram, sensivelmente, no início deste mês. Numa fábrica. Três dias depois, morreu. Ele. Ela? Continua a combater. Li no Observador: "Ela promete salvar-se e viver por ele". 

Lembrei-me deles. Agora. 

Em 2020, em cada cem casamentos, registou-se uma percentagem de 91.5% de divórcios (Pordata). Em Portugal. Para além dos "porquês" (pertence a cada um), o que, verdadeiramente, será interessante, na leitura destes números, são as pessoas. E o caminho! 

Lembrei-me deles. Agora. 

Escuto, algumas vezes, frases como: "não me separo por causa dos meus filhos"; "prefiro esperar que cresçam para, depois, poder pensar em mim". Deveria ser assim?

Escuto, algumas vezes "nunca serei capaz de mudar"; "prefiro estar como estou...pelo menos, já sei com que posso contar". Será?

Escuto, algumas vezes, "desamores". E o modo como nos habituamos a ele. Ao "desamor".  

Escuto, algumas vezes, o adiar. E a permanência. Naquilo que não queremos. Por mais que nos esforcemos para querer. 

Pessoas como nós. 

A separação. As pessoas separam-se por diversos motivos. Mas, talvez o principal, será nunca desistirem de poderem caminhar em direção a... Poderia dizer, em direção a serem mais felizes. Mas prefiro dizer em direção ao amor. 

A separação magoa. Muito. Sentimo-nos metade. Do que imaginámos que iríamos ser. Perdemos. E perdemo-nos. A separação torna o tempo difuso. Finta os projetos que tínhamos, a dois. E que deixámos de ter. Os dois. 

A separação obriga-nos. A ir. A chorar. A porquês. A chorar. A zangarmo-nos. Connosco. Com o tempo. Esse estranho que joga "aos dados" com a nossa vida.   

Mas,

A separação, apesar de tudo, pode fazer bem. Quando conseguimos aprender. E compreender os "ses" (de antes). Os dois. Quando passamos a acrescentar-nos. A nós. Assim consigamos tornarmo-nos, todos os dias, melhores. Pessoas. 

A separação, apesar de tudo, pode fazer bem. Aos dois. Porque, de alguma forma, não adiamos. Não adiamos mais. O amor.  

Não são os filhos. Não é o trabalho. (as razões que damos! ou que precisamos dar para não olharmos para nós. Magoa!). Vocês sabem isso. E eu também. Somos nós. E o medo. Medo de "rasgarmos" o desamor. E a dúvida. E o medo. E a habituação ao desamor. E é tão fácil chegarmos até aqui! 

Pessoas como nós.  

A separação obriga-nos a ir. E a nunca se desistir. Do que se foi. E, mais ainda, do que seremos. Em direção ao amor. Seja em que idade for! 

Pessoas como nós.  

Ana Carolina Pereira

professores

(os) Professores. (os) Alunos e (os) Sinais

Estava distraída. Quando passei a estar atenta. Às palavras que ouvia, ao meu lado. Sentadas, numa mesa próxima, duas professoras. Pelo que percebi. Fui na direção das palavras delas (não foi de propósito. Há palavras que voam até nós!). 

- "Estou cansada. Acham que temos uma profissão fácil, mas não sabem o difícil que é".

- "Já não estou para isto. Ando há anos a percorrer quilómetros. Não estou para isso ...". 

- "Se fosse só ensinar... Mas, é só papelada para preencher. Burocracias atrás de burocracias. (...). Tinha gosto em ser professora. Mas já me sinto sem motivação. Sabem lá do que passamos!"

Factos: o Ministério da Educação pediu um estudo nacional sobre a saúde psicológica e bem-estar da comunidade escolar ("Observatório Escolar: Monitorização e Ação | Saúde Psicológica e Bem-estar" realizado, este ano). 

Factos: os problemas de saúde mental agravam-se à medida que os alunos crescem (12.º ano, altura em que são relatados mais problemas) (pergunta minha: o que se passa para irmos "adoecendo" à medida que crescemos, por vezes?)

Factos: foram identificados, em cerca de metade dos professores, sinais de sofrimento psicológico, como tristeza, irritação ou dificuldades para adormecer.(pergunta minha: o que se tem feito, a este nível?)

A pandemia agravou, seguramente, todo este contexto. Mas os desabafos já se escutavam bem antes.

Os professores e os alunos estão  (alguns deles) cansados. Estão, alguns deles, vulneráveis. Têm dado sinais disso. Há algum tempo. E o que é que, por vezes, acontece? Um assobia para o lado!!!

Os professores e os alunos estão a dar sinais. 

Está na altura de os ouvirmos, não está? 

Ana Carolina Pereira

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Arrependimento

Nunca percebi muito bem a frase "só me arrependo do que não fiz". Faz-vos sentido? Não sei. Ou quando dizem: "se pudesse voltar atrás, não mudava nada". Não sei. Por um lado, entendo, mas. 

Mas, sinto que será mais a nossa dificuldade em tolerar as nossas falhas do que em aceitá-las, de verdade. Sinto que será mais a nossa vontade de nos apaziguarmos diante do erro (que não assumimos, de facto, porque magoa) do que o desejo, sincero, de acreditarmos que não nos arrependemos de nada. Já pensaram quão pouco tolerantes tendemos a ser? Connosco? E quanto nos enredamos em interpretações demasiado simplistas da complexidade que é a nossa vida?

Por vezes, chegamos a um "estrada" que não nos apercebemos que estávamos a caminhar. A rapidez dos dias nem sempre nos permite escutar o que sentimos. O que queremos. Ou, então, é precisamente a rapidez dos dias que perseguimos para...não termos de pensar...no que estamos a sentir. Já vos aconteceu? Não concordam que o arrependimento nos poderá tornar melhores pessoas? (Desde que não persistamos viver na culpabilização, constante, dos nossos erros, claro! se assim fizermos, não mais caminharemos. estagnamos!).

Arrependermo-nos das nossas escolhas não nos torna infelizes. Amargurados ou fracos. Torna-nos conscientes. Atentos. Humanos. Frágeis. Vulneráveis. Mas, profundamente, humanos. 

Dizem-nos tantas vezes que não faz mal errar. Engraçado. Então, se assim é, por que razão magoa tanto assumirmos o erro de um determinado caminho? Seremos menos por sermos mais erro? Acho, genuinamente, que não. 

Há um excerto de uma canção da Adele que diz: 

                      "(...) To be loved and love at the highest count

                        Means to lose all the things I can t live without

                        Let it be known that I will choose to lose

                        Its a sacrifice, but I can t live a lie

                        Let it be known, let it be known that I tried (...)

E eu achei-a tão bonita que decidi partilhar convosco. O arrependimento não poderia ser algo, igualmente, belo se nos fizesse tornar melhores pessoas? Concordam? Eu acho que tornaria. Se o entendêssemos como um olhar para dentro de nós. Aceitar a falha. Perspetivar como poderemos ser melhores. E, como diz a canção, seguirmos com a convicção que tentámos. Saibam que tentámos!

Saibam que tentámos. Saibam que não faz mal arrependermo-nos.

Aprendamos com o nossos erros. Decisões. Assumamo-los. 

Um dia chegou-me uma história bonita. Quer dizer, uma pessoa. Não é a mesma coisa? 

Em conversa, falávamos sobre a possibilidade de podermos ter um livro do nosso futuro. Onde saberíamos tudo o que nos iria acontecer, a partir daí. Imagino que, para alguns de vós, pudesse ser aliciante esta ideia. Mas seria mesmo? Não gostaria de saber o meu futuro. Prefiro a incerteza. O improvável. O imprevisível. Prefiro caminhar por trilhos que desconheço. Encontrar histórias por aí. Pessoas. Não será preferível assumirmos decisões erradas? Decisões felizes? Não será preferível arrependermo-nos, por vezes, do que fizemos? Não significará, isso, que vivemos? Vivamos com a dignidade de sermos humanos. Com a dignidade de, olhando para trás, aprendermos como, a partir daí, podemos passar a caminhar. Em direção ao futuro. Bonito. 

Saibam que tentámos

Ana Carolina Pereira